Metanalysis S01E01 – Janeiro e Fevereiro de 2020

Publicado por Álvaro França em

Saudações jogadores!

Começamos hoje uma série de artigos mensais, que têm por objetivo a análise do metagame Pauper do Magic Online (MOL) e dos grandes eventos ocorridos no último mês! Essa é a primeira série de artigos que me proponho a escrever, e espero trazer uma visão diferenciada sobre como o nosso querido formato evolui com o passar dos tempos.

Como estamos começando esta série já no mês de março, farei uma introdução sobre os principais pontos do fim de 2019 e do mês de janeiro de 2020, e logo após, como o metagame evoluiu até o início e final de fevereiro. Por isso, este artigo tende a ser mais longo que os que estão por vir, então, apertem os cintos!

OBS: As análises abaixo serão feitas preferencialmente considerando os resultados dos eventos maiores como o Challenge. Preferi deixar as ligas um pouco de lado pois estes eventos apresentam um formato de execução diferente e com pouca relevância estatística.

Fim de 2019 e Janeiro de 2020

O ano começou com uma expectativa forte de mais banimentos no formato. Desde o banimento de Arcum’s Astrolabe em outubro de 2019, o Pauper passou por um forte período de adaptação constante, que gosto de chamar de “entressafras”. Pra quem entende um pouco do agronegócio, sabe que, como o próprio nome diz, entressafra é o período entre uma safra e outra (sendo safra nada mais que a colheita do ano, dos produtos plantados no último período). Gosto de utilizar este termo para ilustrar o período em que o formato busca um ponto de equilíbrio em seu metagame, e normalmente, costuma ser o período em que os jogadores mais trabalham em suas teses a respeito de qual arquétipo é o melhor a ser explorado no momento. Assim que o metagame se estabiliza em um ponto menos volátil, os jogadores entram no período de safra, que nada mais é que a “colheita dos frutos” do trabalho de refinamento dos arquétipos do metagame. Normalmente, é quando acompanhamos resultados bem similares entre uma semana e outra, ou quando conseguimos enxergar melhor um “ciclo” de mudanças similares no metagame, como por exemplo a mudança de escolha dos jogadores em um evento, baseada nos resultados de um evento anterior.

Pois bem, de outubro para janeiro, vimos vários ciclos iniciarem e findarem no metagame em busca desse equilíbrio. Como era de se esperar, o banimento de outubro praticamente extinguiu o arquétipo Jeskai Blink (ou Snow Jeskai), que vinha dominando até então. O arquétipo começou como um midrange forte contra o principal arquétipo control do formato, o Tron, e com matchs bem tranquilas contra outros midranges como UR Skred, MonoU Delver e Boros Monarch, que praticamente desapareceram do meta por alguns meses, com exceção do Boros Monarch que encontrou ainda bastante valor na utilização do Arcum’s Astrolabe. Até mesmo alguns aggros como Burn e Affinity ficaram escondidos nesse período. De fato, o arquétipo possuía certa consistência tanto em controlar o jogo quanto em explorar os danos pulverizados nos diversos turnos que, ao fim, acabavam por dar a vitória ao Jeskai. Além disso, claro, a recursividade e o card advantage expressivo faziam deste arquétipo um predador nato. Como era esperado, a exclusão do arquétipo fez com que muitos outros renascessem das cinzas. A princípio, vimos Burns e Stompys comendo pelas beiradas e galgando tanto posições boas tanto na intenção de escolha dos jogadores quanto nos resultados. Não demorou muito para que os Boros também aparecessem, tanto na sua versão Monarch como na Bully, desta vez já adaptados para a falta do seu querido artefato nevado. Estes, detiveram uma parcela considerável do metagame por vários meses, mas o grande titã voltou a ser o Tron. Claro, sem o seu principal predador no metagame (o Jeskai), e sem as suas principais ameaças (os UR Skred e MonoU Delver, midranges que abusam bastante do Tempo), o Tron passou a ocupar a parcela mais jogada do formato no MOL, principal escolha entre os jogadores.

Mas, pouco antes de do banimento, Throne of Eldraine foi lançada oficialmente, e junto da edição, uma carta muito importante para o metagame atual foi impressa. Estou falando da carta Mystic Sanctuary, que desde os spoilers iniciais passou a se destacar como uma das melhores inclusões para o Pauper da edição, mas que ficou adormecida até meados de novembro/início de dezembro, quando passou a estrelar nos arquétipos UR Skred e MonoU Delver. Como uma resposta a grande quantidade de Trons no formato, esses arquétipos ressurgem com uma nova ferramenta, criando interações entre Mystic Sanctuary e cartas como Deprive e mais recentemente Tragic Lesson. Esses arquétipos ainda passaram a ter matchs bem decentes contra Boros Monarch, que até então ocupava a uma outra boa fatia do formato, junto ao Stompy.


O metagame estabilizou-se então em Tron, UR Skred, MonoU Delver e Stompy (como respostas a tirania do Tron) e Boros Monarch/Bully (midrange de muito valor que sempre permanece no formato, apresentando ameaças aos demais midranges azuis que abusam do Tempo). Tivemos inclusive, em dezembro, o Nacional Pauper 2019 em São Paulo, que além de ter contado com uma grande quantidade de UR Skreds, Affinitys, Boros Monarch/Bullys, Stompys e Trons, contou ainda com três cópias do UR Skred no top 8, e uma cópia do UR Flicker, mostrando que, pelo menos no nosso país, o metagame estava preparados para os Boros e Trons que viriam.

Finalmente, entramos em janeiro de 2020. O Tron seguia sendo o carro chefe do formato, como uma locomotiva a mil por hora pilotada por figuras como A_AdeptoTerra e Heisen01 no MOL, que sempre apresentam boas colocações com o arquétipo. A morosidade como o Tron tende a levar os jogos, e o fato de que os jogadores mais bem instruídos com o arquétipo acabam por ter uma vantagem no MOL por consequência do tempo da rodada que é contado separadamente para cada jogador, levou a uma enxurrada de pedidos de banimento em peças chave do arquétipo, como a carta Ephemerate, que é a engrenagem principal de recursividade do arquétipo junto a Mnemonic Wall e Ghostly Flicker, e Stonehorn Dignitary que possibilita que o Tron tenha matchs até favoráveis contra alguns aggros do formato, que até então pode ser considerado uma anomalia, visto que normalmente arquétipos aggro tem vantagem sobre arquétipos control.

E de fato, sendo o Tron o deck que tem acesso a diversos tipos de recursos de várias cores diferentes, acaba por levar o arquétipo a ter uma boa resposta contra praticamente tudo no formato, e o que leva o deck a ser a principal escolha durante todo o mês de janeiro. Vamos às estatísticas!

Durante todo o mês de janeiro, considerandos os challengers, o Pauper Showcase e o Pauper Championship ocorridos após o dia 12 [1], tivemos:

Resultados Referentes aos Challenges, Showcases e Pauper Championships do MOL [1]

Sendo:

*Arquétipo: Nome dado ao arquétipo analisado

*Qtd: Quantidade presente do arquétipo nos eventos analisados

*W: Quantidade de vitórias do arquétipo nos eventos analisados

*L: Quantidade de derrotas do arquétipo nos eventos analisados

*%W: Percentual de vitória do arquétipo nos eventos analisados (W/(W+L))

*%W_Smooth: Percentual REAL de vitória do arquétipo nos eventos analisados, corrigido com Additive Smoothing [2]

*Qtd(%): Quantidade presente do arquétipo nos eventos analisados, em percentual

*Top8s: Quantidade de vagas no top 8 ocupadas pelo arquétipo nos eventos análisados

*Campeão: Quantidade de vezes em que o arquétipo analisado foi campeão no eventos analisados


Se o Tron é o arquétipo mais escolhido entre os jogadores, porque foi campeão em apenas um dos quatro eventos analisados? Resposta simples, o metagame combateu a ameaça com sucesso. Apesar das várias colocações em top 8, decks como UR Skred, MonoU Delver, Affinity, e o mais recente UB Delver (que costumo chamar de UB Next Level Drops, por ser uma revisão do arquétipo UB Drops que colocava-se muito bem antes da Blue Monday), que usando das mesmas interações de recursividade das suas irmãs azuis, passou a apresentar novamente bons resultados, tomaram boas posições do Tron nestes eventos. Outros arquétipos mais agressivos como o GW Auras e o GWr Slivers (que evoluiu através do Turbo Slivers do Caleb de dezembro para cá) também fizeram o mesmo, principalmente o GW Auras que, para combater o loop da perda de fases de combate do Tron, passou a utilizar cartas como Fling, Soul’s Fire e mais recentemente Essence Harvest.

Assim, só de arquétipos variantes que utilizam de Mystic Sanctuary como ferramenta, tivemos 44 escolhas! Isso explica bem como o formato respondeu a soberania do Tron. Apesar dos esforços, fechamos o mês de janeiro com o Tron sendo o arquétipo mais escolhido, aparecendo 48 vezes nos quatro eventos, e ocupando 13 das 32 posições de Top 8 disponíveis. Seu percentual de vitórias segue acima dos 50%, e aqui peço para que se atentem a coluna rotulada com “%W Smooth”[2]. Podemos ver ainda que seus predadores, ocupando as outras quatro posições do nosso top 5, tiveram percentuais de vitória similares, com exceção do Burn que, apesar de um belo predador para o Tron, tem jogos um tanto desfavoráveis contra outros arquétipos do formato. Assim, a priori, pode parecer que o formato está polarizado entre Tron e “Anti-Trons”, mas analisando o percentual de vitórias vemos que os demais arquétipos do top 5 apresentado, além de bem escolhidos, têm percentuais de vitória que mostram que os mesmos sabem lidar com o restante do metagame.

E assim, entramos o mês de fevereiro!


Fevereiro de 2020

Com o Tron como uma ameaça latente no formato, mas sendo deixado para trás por outros arquétipos, pudemos ver resultados bem variados no mês de fevereiro. Nenhum challenge apresentou um padrão nos resultados do top 8, e melhor, nenhum dos eventos teve como campeão um arquétipo que já tivesse ganhado um evento no mesmo mês! Isso mostra que, não só a coroa foi retirada do monarca Tron, como também houve uma mudança no formato que o manteve saudável. Explicando em números, considerando os challenges ocorridos no mês de fevereiro, temos:

Resultados Referentes aos Challenges, Showcases e Pauper Championships do MOL [1]

Os dados acima são referentes aos eventos ocorridos nos dias 2, 16 e 23 de fevereiro. Infelizmente os dados massivos do Challenge do dia 9 e do Premier do dia 22 não forma coletados.


A primeira vista, parece que pouco mudou, mas, vamos olhar com um pouco mais de atenção.

Em primeiro lugar, o Tron perdeu o posto de deck mais escolhido. Em seu lugar, ficou o UR Skred. Mesmo no déficit dos dados de um evento, podemos entender que essa mudança no metagame é intuitiva frente ao que era visto no mês anterior. Com tantos Trons aparecendo nos top8’s, a resposta intuitiva dos jogadores era optar por um arquétipo que tivesse matchs mais favoráveis contra o Tron, e assim, o UR Skred subiu. Seu percentual de vitórias se manteve o mesmo, mas o Tron, em compensação, teve uma redução de 2% frente aos valores de janeiro. O Affinity também teve uma queda no percentual real de vitórias frente a janeiro, e o MonoU Delver, que tomou o posto do UB Next Level Drops, teve um bom aumento não só não quantidade de aparições, quanto no percentual real de vitórias que destacou a lista com a de melhor desempenho do nosso top 5 durante o mês de fevereiro. Importante salientar que apenas um arquétipo teve melhor desempenho que o MonoU Delver, e foi um arquétipo que não ocupou uma das cinco posições de maior intenção de escolha dos jogadores.

Estou falando do Boros Monarch, que apesar de ter aparecido apenas duas vezes no mês de fevereiro, ganhou mais da metade dos seus jogos, chegando a um percentual real de vitórias de 60%, ocupando um espaço no top8 e sendo campeão de um dos eventos, pilotado pelo billster47 e fazendo um resultado excepcional de 10-0 no evento do dia 23 de fevereiro!

Em segundo lugar, podemos ver que, apesar da grande quantidade, tivemos menos ocorrências de Trons nos Top 8’s, mais ocorrências de UR Skred, e, controversamente, nenhum campeão! Novamente, vemos um dado contraintuitivo a quantidade de ocorrências dos arquétipos nos eventos, e novamente, explicamos isso de maneiras simples. Dos quatro eventos ocorridos em fevereiro, em metade deles o campeão foi um arquétipo aggro, no caso Elves e Stompy. Ficou mais claro agora? Não? Explicarei melhor. Com uma boa quantidade de midranges aparecendo para lidar com Trons, e consequentemente a quantidade de Trons caindo em intenção de escolha, os aggros foram “comendo pelas beiradas” e aproveitando as matchs favoráveis. O UR Skred, por exemplo, sofre um pouco na match contra Stompy, da mesma forma que o MonoU Delver e o Affinity tem dificuldades para lidar com Elves. Assim, com a concentração do metagame nos midranges e controls, era de se esperar que os aggros se beneficiassem disso e acabassem por galgar boas posições nos eventos. O Affinity, por ser um aggro, também deveria ter boas chances de realizar tais feitos (e chegou quase la no dia 9, onde chegou ao segundo lugar pilotado pelo brasileiro Leeg) , mas sendo um dos arquétipos que mais recebe respostas violentas dos sideboards, acaba por não ter uma performance tão melhor. Para que está acostumado com o arquétipo sabe que um único Gorilla Shaman bem colocado pode estragar por inteiro o seu plano de jogo em apenas um turno, e como quatro dos cinco arquétipos mais jogados tem acesso ao vermelho, não era de se espantar que as coisas ficassem um pouco mais complicadas para o Affinity do que para o Stompy e para o Elves, por exemplo.

Assim, pudemos ver que apesar da insistência da comunidade em requisitar banimentos para o Tron, ou de dizer que o Tron se tornou “muito forte para o pauper” (como nosso amigo Alex “Cryman” citou em mais um dos seus infames artigos), o metagame e, mais importante ainda, os jogadores, têm condições de lidar com as ameaças. Além da mudança numérica, pudemos ver ainda novos arquétipos entrando no formato. As menções honrosas para o mês de fevereiro são o Monogreen Walls Combo, o UW Familiars Tribe e o Monoblack Control (Corrupt), sendo que essa última ocupou o quarto lugar no top 8 do evento ocorrido no dia 16 de fevereiro! Isso só reforça o que venho sempre citando nas comunidades que participo, o metagame tem espaço para desenvolvimento e ainda temos ferramentas não exploradas no formato, mas os jogadores precisam querer tanto explorar como ver as possibilidades disponíveis. Continuemos o bom trabalho, que ainda temos muito crescer!


Por fim, para finalizar a análise do mês de fevereiro, e saindo um pouco do ambiente digital, tivemos no dia 16 de fevereiro a realização do Pauper&Geddon, em Milão, maior evento Pauper da Itália e um dos maiores do mundo, que contou com 246 jogadores! Vamos aos números!


O metagame físico do evento não foi muito diferente do que víamos no MOL durante o mês de fevereiro, com exceção da introdução de mais aggros no formato, o que, como já explicamos, é intuitivo. O campeão surpreendeu, sendo um Atogshift, que apesar de ter splitado com o Tron na final (Tron esse pilotado pelo já conhecido A_AdeptoTerra) chegou até lá com um score de 10-0! E analisando novamente o top 8, podemos ver que, apesar da quantidade massiva de UR Skreds (cerca de 13% do evento), tivemos apenas uma cópia presente. Provavelmente as demais foram devoradas no decorrer do evento por Elves, um arquétipo que é pouco escolhido no MOL e aqui no Brasil, mas que parece fazer sucesso entre os italianos. Além disso, tivemos uma quantidade razoável de GW Auras, que apesar de não ter aparecido no Top 8, pode ter colaborado para o número baixo de Trons e UR Skreds entre os finalistas.

Enfim é isso, este primeiro artigo ficou um pouco mais extenso para cobrir alguns conceitos que visitaremos novamente nos artigos futuros, mas espero ter trazido um bom overview sobre o formato para vocês! Todas as listas citadas estão nos links postados semanalmente na nossa página no Facebook! Nos vemos no próximo artigo!

Até breve!


Fontes

[1] Dados retirados do Challenge Project

[2] Os valores da coluna “%W Smooth” foram obtidos utilizando uma ferramenta estatística chamada Additive Smoothing, utilizada para a suavização de dados categóricos. No nosso caso, ela é utilizada para encontrar o percentual de vitórias “real”, considerando que o arquétipo tenha ocorrências suficientes. Caso contrário, um arquétipo que apareça apenas uma vez e jogue um único jogo, terá 100% de percentual de vitória ou de derrota, o que pode não se afirmar caso o número de ocorrências seja maior.

Imagens: @xing_oliveira no instagram


Álvaro França

Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal Fluminense, trabalha como cientista de dados no mercado de energia e joga Magic:The Gathering desde 1998, com ênfase no formato Pauper desde 2009. Aventurou-se em vários card games e demais jogos de estratégia durante a vida e acumulou largo conhecimento na teoria e prática desse tipo de jogo.

2 comentários

ANGEL ALCANTARA ARAUJO · março 5, 2020 às 17:23

Muito bom! Eu acredito realmente que a wizards não deva banir nada agora no dia 9 no pauper. O formato está em um ciclo saudável. O power level do tron é sim bastante alto e ephemerate é uma carta absurda. Porém podemos ver que não é imbatível, como era o UB com a sinergia na época de Gush + Foil + Daze.
Não foi mencionado mas wizards também acertou em alguns lançamentos em theros que fizeram o Heroic se tornar uma boa opção de aggro no formato.
Monarca ainda deve ficar no radar, o deck deu uma sumida breve por causa da hegemonia do tron, é um deck com resposta pra tudo e em field sem tron é sem dúvidas o deck a ser batido.
Parabéns pelo trabalho, vou seguir acompanhando!

    admin · março 9, 2020 às 23:48

    Muito obrigado pelo feedback! Como esperávamos, realmente não houve banimentos! Veremos no próximo artigo como ficara o metagame do mês!

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