Deveríamos ter Banimentos?

Publicado por Álvaro França em

Deveríamos ter banimentos?

Saudações jogadores!

O formato Pauper carrega um estigma já há alguns anos. Ousaria dizer que quase desde o seu surgimento. Passam-se eventos, entram-se cartas novas no formato e cartas são até banidas do formato. Mas um questionamento sempre ressurge, sempre assombra os jogadores do formato e causa polêmicas. O Tron é um arquétipo forte demais para o formato?

Neste artigo, trarei alguns dados a respeito desse arquétipo tão polêmico, e tentarei mostrar uma opinião imparcial sobre essa polêmica em torno do Tron. Destaco “opinião imparcial” pois levantarei aqui os fatos, sem afirmar se algo deveria ou não ser feito.


Mudanças recentes

Vamos falar brevemente das mudanças recentes que o arquétipo recebeu, que foram as principais motivantes para as recentes solicitações de banimentos na comunidade. Como o arquétipo possui várias versões, usarei como referência esta lista. Ela ficou em primeiro lugar no Pauper Challenge do dia 14 de junho, nas mãos do Hellsau.

É indiscutível que o arquétipo sempre foi forte no formato e que a mecânica de big mana é algo bastante utilizado em vários formatos do jogo. Mas recentemente o Tron ganhou novas ferramentas que, no mês de junho, consolidaram-se como staples na maioria das listas.

A primeira é a carta Bonder’s Ornament, que além de garantir uma correção das manas coloridas do arquétipo, auxilia sua estabilidade no mid e late game. Conforme citei no Metanalysis de junho, a carta foi lançada em Commander 2020 e estreou no MOL a um valor proibitivo para a maioria. Porém, na segunda quinzena do mês de junho, o drop rate da carta duplicou, e com isso o seu preço caiu bastante. Foi o suficiente para torná-la acessível a maioria dos jogadores mais engajados. Isso acabou por desencadear, ou melhor, aumentar as reclamações a respeito da suposta hegemonia que o arquétipo impõe, e a necessidade de novos banimentos no formato. 

Outra carta que também foi uma inclusão recente no arquétipo, mas com impacto bem menor no metagame, foi Thriving Isle, parte do ciclo das Thriving Lands que foram lançadas em Jump-Start.

Como o Tron é um arquétipo que acessa todas as cores do jogo, as Thriving Lands ajudaram a corrigir com mais facilidade uma cor no momento necessário. Por exemplo, supondo que o jogador do Tron tenha uma mão inicial com cartas azuis e vermelhas, e uma Thriving Land. Ele consegue ter acesso a essas duas cores com um só terreno. Caso ele tenha cartas de outras cores na mesma mão, ele pode escolher o momento oportuno de jogar esse terreno e escolher a cor que lhe for necessária. Ele pode até mesmo utilizar a carta Ghostly Flicker para, eventualmente, escolher o terreno como alvo e escolher uma cor diferente da que havia escolhido primeiramente, e corrigir a sua necessidade.

Apesar da versatilidade, a carta não tem estado presente na maioria das listas, ficando até totalmente de fora das listas melhores colocadas no último mês. Com isso, consolidamos que a carta mais impactante nas mudanças do arquétipo é realmente Bonder’s Ornament.


Insatisfação dos Jogadores

Muitos são os argumentos que levam os jogadores a concordarem com a suposta verdade de que o arquétipo precisa de uma solução mais drástica. Reuni abaixo os principais motivadores que vem sendo repetidos já há algum tempo nas comunidades.

1- Mecânicas “Anti-jogo” frustrantes

Com uma característica de controle, o Tron usa de muitas mecânicas que tem como principal objetivo impedir que o oponente siga com o seu plano de jogo. Até então tudo bem, a maioria dos arquétipos controles visam impedir a normal execução do plano de jogo do adversário.

O diferencial no Tron é que ele, de fato, executa essa estratégia sem permitir respostas sólidas. Um claro exemplo disso é a interação quase perpétua entre Mnemonic Wall, Ephemerate (ou Ghostly Flicker) e Stonehorn Dignitary, que simplesmente acaba com o plano de jogo da maioria dos aggros do formato. De fato, a recursão entre Mnemonic Wall e Ephemerate dão ao Tron a possibilidade de, indefinidamente, retornar mágicas que façam o jogador ganhar vida, causar dano, remover criaturas, buscar outras instantâneas no baralho, prevenir dano de combate e etc.

Como pode-se notar, unindo essa mecânica a de big mana, acabamos por ter acesso a tantas estratégias que o arquétipo torna-se um “canivete suíço”. Assim, ele pode ter respostas sólidas contra a maioria das estratégias do metagame do formato. Isso acaba causando demasiada frustração nos seus oponentes.

2- Desbalanço entre os tipos de Arquétipo

No geral, a balança dos arquétipos funciona da seguinte forma: Arquétipos aggros são bons contra controles, que são bons contra combos, e que por sua vez são bons contra aggros e o ciclo se fecha. Temos midranges nesse meio de campo. Por possuírem características duplas, algumas vezes podem ser melhores contra controles, outra melhores contra aggros e outras melhores contra combos, variando com o tipo do arquétipo utilizado. O problema aqui é que o Tron, por possuir algumas interações que previnem dano de combate indefinidamente, ou fazem com que um jogador perca sua fase de combate como um todo, acaba sendo um arquétipo controle que tem bons resultados contra aggros, o que é contra intuitivo do ponto de vista do balanço e de como o jogo foi projetado para funcionar. Esse desbalanço acaba por desencadear, também, reclamações entre os jogadores.

3- Bloqueio na evolução do formato

Sendo um arquétipo do tipo “canivete suíço”, que significa que tem acesso a muitas respostas de maneira não muito trabalhosa, sempre que um jogador tenta criar algo novo ou implementar um novo arquétipo ou estratégia no formato, a primeira pergunta que é feita é “Essa estratégia/esse arquétipo, consegue ganhar do Tron?”. De acordo com alguns jogadores, essa necessidade de se criar um check mental sobre as possibilidades de uma nova ideia ter bons resultados contra o Tron, limitam o potencial criativo do formato. Ou seja, diz-se que é extremamente complicado de se criar algo novo no formato pois, na maioria dos casos, o Tron pode acabar por arruinar a ideia e o trabalho envolvido na mesma. Dessa forma, supõe-se que, na ausência do arquétipo, novas estratégias possam surgir no formato e com maior facilidade.


É imbatível?

Todos esses pontos discutidos até agora levam a indagação da possibilidade do arquétipo ser simplesmente imbatível. Deixo claro que, do meu ponto de vista, isso não é nem de perto uma verdade, e aqui estão alguns dos motivos que acredito serem pertinentes.

1- Estabilidade

Apesar do late game do arquétipo ser bem consistente, nem tudo são flores. Quem está acostumado a pilotar o arquétipo (eu inclusive) sabe que o early game do Tron não é dos melhores. Um descarte bem efetuado em uma fonte de mana colorida, uma remoção em um Prophetic Prism, ou até mesmo uma anulação/remoção na famigerada jogada de terceiro turno com  Prophetic PrismMulldrifter pode arruinar a estratégia do Tron, ou no mínimo ganhar turnos o suficiente para que o arquétipo não consiga mais controlar o jogo. Nesse aspecto entra também estratégias de midranges azuis como UR Skred e MonoU Delver, que utilizam de cartas de custo 1 como Delver of Secrets e Faerie Miscreant tanto para um início mais agressivo, quanto para garantir um Ninja of the Deep Hours no turno dois, famosa jogada de grande impacto contra o Tron por possibilitar não só dano, mas card advantage constante.

2- Complexidade

O mesmo que torna o Tron um ótimo arquétipo, é também o que o torna expressivamente complexo. O acesso a várias cores e o perfil “canivete suíço” acaba por gerar uma linha de decisões grande o suficiente para que a complexidade do baralho seja maior do que a da maioria dos outros arquétipos do formato. As chamadas “microdecisões” estão presentes em basicamente todos os turnos após os três terrenos de Urza estarem em jogo. 

A complexidade em si não é um ponto negativo, mas torna o arquétipo algo que “não é para todos”. Não me entendam errado, não estou dizendo que o arquétipo não deveria ser pilotado por qualquer pessoa, mas há de se acreditar que nem todos conseguem ter a mesma performance com qualquer arquétipo. Assim, o Tron acaba por ser uma arma afiada mas que necessita de uma maestria incomum para que se tenha bons resultados. Esse é o principal motivo do porque um baralho tido como um titã no formato não é simplesmente escolhido pela maioria. É também o mesmo motivo que me leva pessoalmente a acreditar que alguns jogadores são mais responsáveis pelos resultados do arquétipo do que o próprio arquétipo em si. Vamos falar mais sobre números adiante nesse artigo.

3- Resultados

Tivemos meses ainda neste ano em que o Tron teve um aproveitamento de mais de 70% de Top 1s nos eventos de um mês. Mas, quando olhamos o todo, vemos que não é uma regra.

O arquétipo, como falei inúmeras vezes, é claramente muito forte no formato, mas não chega a apresentar um perfil opressor, e os resultados mostram isso. Se olharmos todos os eventos desde o início do ano, quase conseguimos contar nos dedos as vezes em que o arquétipo foi campeão, e uma quantidade ainda menor em que ele foi campeão em várias semanas consecutivas. Isso deve-se também ao fato do arquétipo ser complexo, o que faz com que alguns jogadores, mesmo optando por jogar com ele, não obtenham resultados muito bons.

Outro fato que impacta nos resultados e é um pouco mais simples de compreender é que o metagame está em constante mudança. É uma espécie de ecossistema artificial onde as diferentes raças e espécies (arquétipos) se regulam para que o ambiente fique saudável (metagame). Assim, sempre que o Tron aparece em números maiores, seu algozes mais comuns tendem a aparecer em um futuro bem próximo para conter a “ameaça”.

Para ilustrar melhor a questão dos resultados, vou apresentar abaixo os dados utilizados nas minhas análise. Acredito que estes são os dados mais importantes na análise de saúde do metagame e de potencial do Tron em específico.


Tron em Números

Alguns dos números que apresentarei agora já foram apresentados no Metanalysis de junho. Mas, temos alguns pontos inéditos.

Quantidades x Percentual de Vitórias

Top 10 arquétipos mais presentes – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Top 10 arquétipos mais presentes com %W – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Aqui temos duas análises importantes a fazer. A primeira é pela quantidade. 

Um dos fatores que pode mostrar que um metagame está polarizado ou não, e consequentemente não está saudável, é a quantidade de cada arquétipo presente. Neste ponto vimos que, de fato, o Tron apresenta um número grande o suficiente para ser o arquétipo mais presente do formato. Contudo, nem de longe, conseguimos ver uma polarização. 

A polarização nada mais é do que a divisão do metagame em dois polos. Normalmente, isso acontece quando temos um arquétipo extremamente dominante (um polo) e outro um (ou outros poucos) arquétipo que domina o dominante (outro polo). Isso gera um cenário onde aproximadamente metade do metagame é o arquétipo 1, e a outra metade é composta por arquétipos que tem vantagem contra o arquétipo 1.

Mesmo com quase 100 cópias de diferença para o segundo arquétipo mais presente, é impossível ver uma polarização. Inclusive, é possível ver que no Top 10 temos arquétipos que são ruins contra o Tron, como o Stompy e o Boros Monarch. 

Um segundo fator a ser analisado quando tratamos da saúde do metagame, é o percentual de vitórias de cada arquétipo. Esse número deve ser pareado com a quantidade de cada um, uma vez que queremos entender como funciona a maior parte do formato e excluir possíveis outliers derivados de arquétipos rogue.

Quando olhamos o percentual de vitórias corrigido pelo Additive Smoothing (coluna %W_Smooth na tabela, linha vermelha no gráfico), vemos que o Tron, mesmo em grande número, não apresenta um percentual de vitórias muito maior que qualquer outro arquétipo. Pelo contrário, seu percentual de vitórias é bem próximo da média dos dez arquétipos mais presentes, e se equipara a arquétipos como o Boros Bully e o UB Next Level Drops. Dessa forma, fica claro que suas chances de vitória não são, em média, muito superiores a qualquer outro arquétipo relevante em números.

Distribuição de Macrotipos

Uma terceira análise pode ser feita para a avaliação de saúde do metagame.

Dados do Semeste por macrotipo de arquétipo – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Quando dividimos todos os arquétipos, presentes nesses seis meses de metagame pelos seus respectivos macrotipos, temos a distribuição de acordo com o gráfico pizza acima. O número bruto de controles é de 485. Se olharmos o número total de Trons na primeira tabela, vemos que ele representa quase 80% dos controles do metagame semestral. Assim, para fins de análise, imagine que extrapolando, todos os arquétipos controle nesse gráfico fossem Trons. Ainda assim, o arquétipo não seria o de maior presença.

Quando analisamos o gráfico vemos que a maior presença no formato está nos midranges (contemplando aqui também os midranges azuis como UR Skred, MonoU Delver e UB Next Level Drops), ganhando com mais que o dobro dos controles. Mesmos os aggros acabam representando mais do dobro dos controles. Dessa forma, vemos que nem de longe temos o Tron como um dominante do formato. Os arquétipos midrange, em sua maioria, apresentam mecânicas muito fortes e jogos muito consistentes contra boa parte do metagame, e por isso, tem a maior presença do metagame.

Impacto da Habilidade do Jogador

Finalmente, uma quarta análise que também tem relevância para o assunto.

Resultados em Top 1 e Top 8 por jogador – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Performance por jogador com Tron – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Metagame com e sem melhores com Tron – Dados provenientes do Challenge Project [1]

Normalmente eu não costumo analisar performance de um arquétipo baseando-me em um número seleto de jogadores. É mais comum em análises de metagame de eventos, considerar que todos os participantes são jogadores aptos a pilotarem os arquétipos com maestria. Mas dada a complexidade do Tron e a disparidade dos números, precisamos levá-los em consideração.

Quando analisamos os números do Tron por jogador, vemos que a maioria dos resultados em Top 1 e Top 8 estão nas mãos de um nicho de seis jogadores. Os demais resultados estão pulverizados em uma quantidade suficientemente grande de jogadores para considerar-se estatisticamente irrelevante para a análise. 

Analisando os resultados vemos que o Hellsau principalmente tem números muito sólidos com o Tron e acaba por ter a melhor performance entre os seis (corrigida pelo Additive Smoothing).

Quando olhamos para o retrato do metagame sem a presença do Hellsau, vemos uma pequena distorção nos números que não parece ser muito relevante. Mas quando excluímos todos os seis melhores, vemos que o Tron apresenta não só um número menor de cópias do que o segundo arquétipo mais presente no semestre (UR Skred), como também um percentual de vitórias bem inferior à média dos demais nove mais presentes no metagame do semestre.

Obviamente essa análise possui algumas falhas, como por exemplo, se esses mesmos seis jogadores não estivessem jogando com o Tron, provavelmente estariam jogando com outro arquétipo. Estes, por sua vez, gerariam resultados diferentes nos eventos. Mas ainda sim, conseguimos ver o impacto que a aptidão de um grupo pequeno de jogadores tem no número total de resultados de um arquétipo.

Por fim, analisando todos os números, vemos que não há evidências claras de que existe cenário opressor empregado pelo arquétipo. Pelo contrário, vemos um metagame balanceado com resultado bem mais apoiados na habilidade de jogadores do que no potencial de um arquétipo em si. Contudo, volto a ressaltar que não estou afirmando que o arquétipo será, não será, deveria ou não deveria sofrer banimentos ou alterações. Estamos aqui trazendo os número e analisando unicamente eles, tentando buscar um melhor entendimento do que é real no metagame, e do que pode ser considerado histeria coletiva.


Opinião de Especialistas

Trouxe aqui a opinião de alguns jogadores para entendermos como veteranos e jogadores experientes no formato pensam a respeito deste assunto tão polêmico.

Fernando Portelada (fportelada) [2]

Criador de conteúdo, dono do podcast Heavy Meta e jogador veterano

“Tron é facilmente um dos reguladores do formato. Ele não deixa os aggros correrem desenfreadamente ou controles agressivos, segurarem todos os outros decks.
Apesar de muito belo quando montado, um castelo de cartas é sempre muito frágil e o early game do tron é exatamente assim.

Quantos jogos já foram arruinados por um Duress de primeiro turno que tirou a única fonte colorida e atrasou um jogo que seria perfeito?

Sem o Tron você vai ver um mar de Boros dominando o meta. Talvez nem a recursão de Mystic Sanctuary seja suficiente para parar os Hawks e Skyfishers deste baralho.

Em caso de banimentos, ficaria muito triste com a extinção do deck. Martelar o mapa ou as lands seria um tiro no pé. Estaria tranquilo, porém, se Stonehorn Dignitary ou Ghostly Flicker pulassem fora.

Ambos possuem substitutos um pouco mais fracos: Moment’s Peace e Displace, respectivamente, que permitem explorar mais ângulos de ataque ao Tron. Um Moment’s Peace pode ser anulado com um Flaring Pain e o Displace não permite proteger artefatos e lands contra hates direcionados, tornando cartas como Smash to Smithereens, Pillage ou Choking Sands, bem mais eficientes no meta.”

Diego Costa Palma (Carvs)

Grinder no Magic Online, jogador veterano e algumas vezes o top trophies em ligas do MOL

“Ao meu ver, o atual problema do Tron, que na verdade é um problema para outros decks, é a adição do Bonder’s Ornament. Com a carta a correção de manas ficou muito forte e há mais possibilidades de se fazer um Mulldrifter no turno 3, e isso atrapalha diretamente o field.

Então, se tiver que rolar algum banimento, acredito que teria que ser no Bonder’s Ornament, ou no Ephemerate e cartas que fazem efeito de “Flicker”. Mas isso SE tiver que ter banimento. Ao meu ver não precisa ter banimento, acho que da pra esperar o field se auto regular ainda, é muito cedo para banimentos.

Mas a questão é que o Tron melhorou muito com Bonder’s Ornament tanto no late game dele,  comprando cartas, quanto o começo de jogo tendo mais fontes de manas coloridas. Porque as mãos “mágicas” do Tron, que seriam de uma a duas peças do Tron, alguma forma de fechar o trio, uma fonte de mana colorida como Prophetic Prism e um Mulldrifter, agora tme mais chances de acontecer com a inclusão de Bonder’s Ornament. Isso pode vir a complicar o field.

E pra mim também, cartas como Mystic Sanctuary, Deprive e Tragic Lesson, também tem um power level muito alto. Mas o Pauper, não podemos esquecer, é um formato Eternal, e precisa de cartas de power level alto. O Tron está na frente na qualidade, mas nem todos sabem pilota-lo. Não são todos que se você der um Tron na mão vai “desfilar” com o deck. Precisa ter o “toque” do deck, isso é uma vantagem frente aos outros arquétipos.

Então, ao meu ver, se tivesse que ter um corte, uma carta que precisasse de atenção, seria o Ghostly Flicker. Ela consegue alvejar artefatos, terrenos, é uma carta muito forte. Mas mesmo sem ela, o Tron se organizaria e ainda seria um deck dominante. Temos que aceitar que em um formato sempre terá um deck melhor que os outros.”

Alexandre Weber (_against_) [3]

Criador de conteúdo e dono do canal Alexandre Weber MTG, jogador veterano e tricampeão nacional do formato Pauper

“Então, sobre os bans que podem acontecer e sobre o Tron. É importante eu falar que tenho uma visão limitada sobre tudo, e quem tem os dados mais completos é a Wizards.

Mas as minhas experiências enfrentando Tron são péssimas, muitas vezes eu sinto que as escolhas que vou fazer dentro do jogo tem zero influência no resultado, já que o Tron domina o late game e fecha a janela para uma chance de vitória de forma muito eficaz. Até mesmo minhas vitórias contra Tron eu sinto que se não ganhasse naquele turno eu não ganharia mais o jogo. Então acho que algo precisa sim ser banido.

Como disse, não tenho acesso a taxa de vitória do deck perante o meta, mas o deck é extremamente frustrante de se jogar contra.”

Álvaro França

Criador de conteúdo, dono do site Mind Gears e jogador veterano 

Aqui, eu ponho a minha opinião pessoal. Conforme o Carvs citou, acho que ainda é cedo para se falar de banimentos. O arquétipo recebeu mudanças recentes e o formato ainda pode se auto regular, como já vem acontecendo nessa primeira semana de julho. 

O Tron é sim um forte arquétipo, mas é complexo, o que dificulta o acesso a qualquer jogador, e é uma espécie de sensor de equilíbrio do formato que impede que tudo se resuma a Boros e a aggros velozes. Assim, acredito que precisamos de pelo menos mais dois meses para que possamos entender se, de fato, o arquétipo sairá do controle, ou se o formato se regulará sozinho. No momento, os números não mostram nada preocupante até então.


Próxima Lista de Banidas

No fim da tarde da terça-feira, dia 08/07/2020, a Wizards of the Cost fez a seguinte postagem em sua conta oficial no Twitter.

Basicamente, foi um anúncio de que, na próxima segunda-feira, dia 13/07/2020, haverá uma atualização nas listas de restritas e banidas dos formatos Historic, Pioneer, Modern e Pauper. Isso gerou certa balbúrdia entre os jogadores e, claro, uma forte tendência a se acreditar que o Tron receberá um banimento. 

Há algumas semanas, um criador de conteúdo do formato Pauper que escreve regularmente para um famoso portal americano sobre Magic: The Gathering, fez uma postagem em seu Twitter pessoal a respeito de uma partida contra o Tron, como era frustrante jogar contra, e marcou a Wizards of the Cost em seu tweet dizendo “fix it please”. Esse tipo de postagem partindo deste criador em específico é muito comum e já ocorre há alguns meses, mais ou menos desde dezembro de 2019.

Apesar de não ser muito aclamado pela comunidade e não receber grandes réplicas as suas postagens, parece ser bem escutado dentro da Wizards of the Coast. Foi assim historicamente com a ocorrência da Blue Monday e do banimento de Arcum’s Astrolabe.

Claro que essas não são afirmações concretas, mas deixa brechas para acreditar-se que há uma forte possibilidade de, novamente, a WotC dar ouvidos a este criador (e um outro par de criadores americanos que dividem de mesma opinião) e executar um banimento no Tron.

Historicamente os banimentos tendem a ser certeiros, de forma que o arquétipo alvo acaba ficando inviável no metagame. Então, podemos esperar que na ocorrência do banimento em alguma peça do Tron, o arquétipo seja inutilizado e acabe por deixar de vez o metagame. 

Seria esse o melhor? Será que o metagame pós banimento seria um metagame mais saudável do que o que temos agora, ou seria só mais um metagame onde alguma coisa será aclamada como alvo de um próximo banimento (como Palace Sentinels e Mystic Sanctuary por exemplo)? 


EDIT: Até aqui, todo o desenvolvimento do artigo foi feito buscando explorar os dados de forma análitca e imparcial a respeito do assunto. O texto abaixo contém pontos que são de minha opinião pessoal, o que em nada influi no que foi mostrado até agora, e de forma nenhuma expressa verdade abosluta. Não sou, de nenhuma maneira, dono da verdade. É apenas a minha opinião pessoal como, também, um jogador do formato, e não é minha intenção que ela seja considerada como uma única verdade ou um direcionador de medidas a serem tomadas pela empresa.

Frustração – Wikipédia, a enciclopédia livre

Para finalizar, deixo uma reflexão a respeito de toda essa polêmica. O que mais escuto dos jogadores que são a favor de banimentos (além do já citado anteriormente) é que o Tron é chato, monótono, e principalmente, FRUSTRANTE de se jogar contra.

Alguns jogadores como o Alexandre Weber que nos deu a honra de um pronunciamento neste artigo, conseguem lidar com todos esses sentimentos e seguir jogando o formato sem causar alvoroços desnecessários, mesmo que aguardando por uma correção. Outros jogadores, diferentemente, simplesmente não conseguem lidar com o sentimento frustração, e criam um movimento quase que em coro de solicitação de banimentos. 

A frustração é um sentimento de fato difícil de lidar. Quando olhamos as principais motivações dos jogadores, não vemos algo que de fato aponte o arquétipo como problemático. Algo que é chato ou monótono para alguém (quem joga contra), pode muito bem ser divertido e dinâmico para outro (quem joga com). Mas a frustração nubla a opinião da comunidade.

Acho que, pessoalmente falando, o Tron não passa disso mesmo, algo que pode gerar frustração. Nem todos tem inteligência emocional para lidar com frustração, mas é bom salientar que essa é uma questão pessoal de como cada um lida com seus sentimentos.

Algo pessoal não pode delimitar o destino e desenvolvimento de um todo, da mesma forma que a aptidão ou não de alguém em lidar com a frustração não pode ditar como o metagame do formato deveria ser. Os tais criadores de conteúdo americanos, por exemplo, são claramente pessoas que não conseguem lidar com frustrações, e por isso sempre destilam o mesmo discurso de banimentos. Cada época, uma carta diferente necessita ser banida para eles. 

Cabe a cada um saber se a sua motivação é baseada na realidade, em fatos que te levam a crer de verdade que o metagame e o formato Pauper podem ser melhores sem um determinado arquétipo. Caso contrário, muito da opinião pessoal vai contaminar a sua visão de realidade, e a sua frustração vai ser vista como um forte motivador mesmo sem ser. Novamente, cabe a cada um saber como lidar com seus sentimentos, é uma evolução tanto como jogador, quanto como ser humano.


Conclusão

Então é isso galera! Chegamos ao fim de mais um artigo! Se você gostou, concorda, discorda ou tem alguma sugestão, deixe seus comentários aqui, na nossa página no Facebook, ou no nosso perfil no Instagram! Curta e conte para os amigos, a sua propaganda é a nossa melhor forma de crescimento! 🙂

Todos os links dos jogadores que me auxiliaram na criação deste artigo estão abaixo!

Até a próxima!


Anexos:

[1] Challenge Project

[2] Heavy Meta Podcast – https://anchor.fm/heavymetapodcast/

[3] Alexandre Weber MTG – https://www.youtube.com/channel/UC3cufsl-_Br8M0nGU5Y7kFw


Álvaro França

Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal Fluminense, trabalha como cientista de dados no mercado de energia e joga Magic:The Gathering desde 1998, com ênfase no formato Pauper desde 2009. Aventurou-se em vários card games e demais jogos de estratégia durante a vida e acumulou largo conhecimento na teoria e prática desse tipo de jogo.

6 comentários

josé magic · julho 9, 2020 às 15:47

“Neste artigo, trarei alguns dados a respeito desse arquétipo tão polêmico, e tentarei mostrar uma opinião imparcial sobre essa polêmica em torno do Tron. Destaco “opinião imparcial” pois levantarei aqui os fatos, sem afirmar se algo deveria ou não ser feito”
(…)
“Acho que, pessoalmente falando, o Tron não passa disso mesmo, algo que pode gerar frustração. Nem todos tem inteligência emocional para lidar com frustração, mas é bom salientar que essa é uma questão pessoal de como cada um lida com seus sentimentos.”

Hahahahaahah
Boa camarada.

    Álvaro França · julho 9, 2020 às 15:53

    Olá! Obrigado pelo comentário e por visitar o nosso portal!

    A imparcialidade do artigo está na exibição dos dados. Deixei minha opinião pessoal, assim como a de outros jogadores, por último, justamente para não misturar o que são dados com o que é opinião!

    Obrigado mais uma vez e fique de olho nas novidades!

Gerson Silva Barbosa · julho 11, 2020 às 06:27

Ótimo artigo, Álvaro.
Eu acabei de ler um artigo que um jogador gringo de Tron defende a extinção do deck, por ele ser forte demais para o formato já que é o único que tem big mana apenas com seus terrenos e o que tem mais fácil acesso a todas as cores podendo usar qualquer bomba que existe ou vai ser lançada para o formato.
Apesar disso, ele disse ser contra banimentos, mas eu entendi bem o ponto dele, só que não concordei com essa conclusão radical.

A minha opinião é que o Tron precisa ser nerfado para que o formato se torne mais saudável.
Ele faz um papel muito importante de regular o formato, mas ao mesmo tempo impede que novas mecânicas e decks surjam no Pauper, pois quase todo deck criado precisa passar pelo “teste do Tron”, ou ter uma alta percentagem de taxa de vitória sobre os demais para ter algum sucesso no meta.

O Ornamento acho que vai permanecer por enquanto, já que acabou de chegar e não é conduta da Wizards banir cartas recém criadas. Pelo menos não no Pauper.
Creio que banir o Mapa seria uma opção interessante por não afetar nenhum outro deck, mas isso não impediria o Tron de resolver a vida com Crop Rotation e Ancient Stirrings.
Ghostly Ficker ia ser bem ruim, já que poderia matar 3 decks e o Tron se adaptaria usando mais cópias de Efemerar ou simplesmente trocaria por Displace.
Tudo isso não resolveria o lock do Corno, então a bola da vez é justamente o próprio Corno.
Banindo apenas o Corno não ia prejudicar outro deck (o Familiar usa o Corno?) e o Tron passaria a utilizar mais cópias de Moment’s Peace, ou apenas novas variações de Tron surgiriam, como também a possível reaparição mais frequente do clássico RUG Tron com suas Estrelas, Esferas, Ulamogs e Frangren Marauders.

Bem, não creio que apenas o Tron tenha alguma baixa.
Infelizmente o Santuário Místico está figurando em muitos decks e a crescente de decks azuis se deu muito por conta disso.
Por ser uma carta nova, apesar de gerar uma mecânica que pode ser tornar abusiva em combinação com outras cartas como o Deprive e até mesmo o Ghostly Flicker, eu acho que o principal problema, por incrível que pareça, é o Deprive.
Gostaria que se algo do azul precisasse ser banido, que o Santuário permanecesse e o Deprive partisse.
E se o Santuário tiver que ser banido de todo jeito, que Daze ou Gitaxian possa voltar.
Apenas Daze já ajudaria bastante decks como o Angler Delver, Mono Blue, UB Fadas (talvez), UR Delver, Tireless Tribe e Kiln Fiend. Seria um ganho e tanto para o formato e de certa forma compensaria a grande perda que o Satuário causaria.
Se só o Gitaxian voltasse, decks como o Kiln Fiend, Angler Delver, Tribe e Burn ganhariam (ou voltariam a ganhar) forças.

É isso. De toda forma, creio que pelo menos duas cartas serão banidas.
Uma para enfraquecer o Tron e outra para diminuir a presença massiva de decks com azul nos tops dos torneios.
E eu estou com o pressentimento de que pode rolar o primeiro desban no formato, mas pelo menos uma das duas. Creio que as duas juntas nunca mais voltarão a figurar juntas no formato.

    Álvaro França · julho 11, 2020 às 21:40

    Olá Gerson! Obrigado pelo comentário e por acompanhar o nosso portal!

    Concordo que há formas de se executar os banimentos sem simplesmente exterminar o arquétipo, mas não sei ao certo se a Wizards of the Coast pensa muito dessa forma.

    Concordo também que, na ocorrência de um banimento, mais de um arquétipo vai ser afetado, visto que na ausência do Tron os Ux fortalecem, na ausência dos Ux o Tron prevalece, e na ausência dos dois o Boros e os Stompys prevalecem. Resta saber como a Wizards pretende fazer isso. Vamos ficar de olho para ver o desfecho dessa “novela” na segunda!

    Abraços, e fique de olho nas novidades!

Baniu, e agora? VOL. 2 - Mind Gears · julho 13, 2020 às 23:59

[…] terrenos que ainda lhe faltam. No fim, voltamos a ter algo mais intuitivo, conforme citei no meu estudo de caso a respeito do Tron. Os aggros costumam ter vantagem sob os controles, e com essa mudança, podemos esperar um maior […]

Metanalysis S01E06 - Julho de 2020 - Mind Gears · julho 29, 2020 às 15:35

[…] formato Pauper. Para quem perdeu, tivemos dois artigos no nosso blog a respeito desses banimentos, um antes e um depois dos banimentos ocorrerem. Caso tenha alguma dúvida a respeito disso, dá uma conferida […]

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